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CRÔNICA DA SEMANA

MEDO DE LEÃO

          Todo ano é a mesma coisa. Quero fugir, mas parece que meus pés estão colados ao chão. E, no fundo, eu sei que não adianta fugir, ele vai me alcançar de um jeito ou de outro. Por mais que eu adie o encontro, vai chegar o momento que ficaremos face a face. É inevitável!

          De longe, ele não parece tão bravo, mas, à medida que o tempo vai passando e ele vai se aproximando, eu percebo o quanto ele é aterrador. Quanto mais eu procrastino, maior e mais feroz ele fica.

          Ontem, reuni toda coragem possível e resolvi entrar na jaula da fera. Ele me olhou e soltou um rugido assustador. Quase larguei tudo e fui embora correndo. Mas senti vergonha por ser tão covarde. Sentei a um canto, bem quieta, como uma menininha medrosa. Fui pegando aquela montanha de papel e deixando do meu lado. Era a minha arma. Ele percebeu que eu não estava brincando. Não rugiu mais, mas continuou com seu olhar ameaçador.

        Depois de algumas horas, levantei. Estava cansada. Pensei em tomar um café e deixar o resto para outro dia, mas ele não deixou. Se colocou na porta da jaula, impedindo a minha saída e eu fiquei em uma encruzilhada. Não sabia o que fazer. Até poderia enfrentá-lo, mas pra quê? Para levar uma mordida? Já fui mordida uma vez e quase fiquei sem uma perna. Pensei bem e resolvi que ele tinha razão. Era melhor acabar de uma vez.

        Foi um dia difícil. Levou horas. Não sou boa com números, meu reino é feito de letras. E todos aqueles papeis me irritam profundamente. Quando finalmente apertei o botão de enviar a declaração, percebi que a fera era só um gatinho manso. Ele subiu no meu colo, deu uma ronronada, lambeu minha mão e foi embora.

         Ele sabe e eu também. Ele vai voltar no próximo ano e, de novo, vou tentar adiar ao máximo nosso encontro. Paciência! Leão ou gato, prefiro cachorro!

SP 12/05/2026

         

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