
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
CRÔNICA DA SEMANA
ARTE AMBULANTE

Nunca vi tanta tatuagem livre, leve e solta passeando por aí. Passam por mim e me encantam ou me assustam. Sim. Porque há de tudo. Desde as mais tímidas, que são pequenas, quase escondidas no pescoço ou no pé, mas também aquelas escandalosas que ultrapassam pernas e braços e chegam ao rosto. Como se a tela do pintor houvesse terminado e a pintura tivesse invadido as paredes.
Não sei bem o que pensar.
Há indícios que desde o tempo dos homens das cavernas já se usava pintura corporal. Os neandertais usavam tintas e pigmentos para celebrar, seja a colheita ou o funeral de algum morto. Também os indígenas sempre pintaram seus corpos para festas ou rituais. Mas a pintura definitiva, normalmente só era usada na antiguidade como uma marca de status.
O Papa Adriano I chegou a proibir as tatuagens dizendo que eram coisa do demônio e até hoje, mórmons e judeus não podem fazer tatuagens em seus corpos. Se bem que alguns são bem desobedientes.
História à parte, eu sempre me pergunto o que leva alguém a fazer tatuagens tão grandes. Será que essas pessoas não se arrependem? Sou geminiana. Mudo de opinião tão facilmente que tenho até vergonha. Imagine alguém como eu fazendo uma pintura definitiva? Acho que nem bem o tatuador acabasse o serviço, eu já estaria arrependida.
E o pior: dizem os entendidos que o custo e a dor de se tirar uma tatuagem são muito maiores do que de fazê-la.
Descubro que foi no Taiti que apareceu a palavra nativa chamada tatau e que vai dar origem a nossa conhecida tattoo e que durante muito tempo, os taitianos acreditaram que foram os deuses que ensinaram os homens a se tatuar. Será?
Tem gente que tatua o rosto de outras pessoas ou de animais. Da mãe, da namorada, do cachorro e até de Jesus Cristo. Fico olhando aquele rosto se balançar e me pergunto o que vai acontecer na velhice quando a pele ficar toda enrugada. Será que ainda vai ser possível reconhecer de quem é ou de quem foi aquele rosto? Acho que não. Vai ser só uma mancha curiosa no meio do craquelê da pele.
As pesquisas mostram o que meus olhos já tinham percebido, que vem crescendo muito o número de pessoas tatuadas. Creio que, com o tempo, vou virar um tipo de animal em extinção. Alguém sem qualquer tattoo no corpo. Vou poder até abrir uma visitação pública e cobrar ingresso. Afinal, uma rendinha a mais sempre vai bem.
São Paulo 21/07/2026