
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
CRÔNICA DA SEMANA
MINHA MÃE DE ESQUERDA

Se minha mãe estivesse viva, hoje ela faria 103 anos.
Foi minha mãe que me ensinou a ser a feminista e o ser político que sou hoje.
Quando casou, na década de 50, ela trabalhava, o que era uma raridade para a época, mas meu pai não permitiu que ela continuasse trabalhando depois de casada. Ela se ressentiu disso a vida inteira e sofria por não ter o próprio dinheiro e independência.
Quando quis tirar carteira de motorista, teve de ser escondido de meu pai. Tomava aulas muito cedo, enquanto meu pai dormia, e só eu sabia disso. Era o nosso segredo. Lembro do orgulho enorme quando ela me mostrou sua carteira. Nunca a tinha visto tão feliz!
Minha mãe deve estar se revirando no caixão ao ver que a deputada do PL, que foi a mais votada por São Paulo, disse que "não acredita em feminicídio" e que "se um homem mandar ela voltar para cozinha, ela volta." Minha mãe teria ficado muito brava com a ignorância e estupidez dessa “mocinha”, como ela costumava dizer.
Minha mãe foi da classe média a vida toda. Nunca teve muito dinheiro, mas sempre pensou nos mais pobres. Costurava na igreja, fazia enxovais para as mães solteiras, comprava cobertores para os moradores de rua. Desde cedo, me ensinou que é muito fácil se dizer católico e só ajudar amigos e familiares. É preciso ajudar a quem não conhecemos, mas sabemos que existem e que sofrem. Minha mãe já era de esquerda e nem sabia disso.
Quando ficou idosa, pegava os remédios que podia na Farmácia Popular e nunca teve vergonha disso, como tanta gente da classe média. A Farmácia Popular criada por Lula é um direito do povo. Ninguém pode morrer porque não tem dinheiro para comprar remédio. Graças a Deus, ela já havia morrido quando Bolsonaro cortou 60% dos recursos da Farmácia Popular em plena pandemia.
Éramos quatro filhos e a vida estava difícil. Meu irmão tinha entrado com pedido de meia-bolsa na faculdade e lembro-me de um dia em que minha mãe estava muito triste, pois se a bolsa não saísse, meu pai não teria mais como pagar. Minha mãe teria tido um treco e morrido de novo se ouvisse, como eu ouvi, alguém dizer que deveriam privatizar todo o ensino. Como é fácil esquecer!! Educação Pública e gratuita é um direito nosso!!
Parabéns, minha mãe! De onde você estiver, por favor, ore pelo Brasil. Ore para que eles não desarquivem o projeto que nunca foi excluído e removam sua Nossa Senhora como Nossa Padroeira. Reze por nós porque são os direitos das mulheres, dos mais pobres que estão em jogo e podem ser perdidos nesta eleição. Reze, minha mãe. Reze muito!!
São Paulo, 06/10/2026