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CRÔNICA DA SEMANA

IGUAIS

         Há pouco tempo, fui a um casamento. Adoro casamentos. Todo mundo arrumado, a noiva e o noivo radiantes, pais radiantes, pessoas que não via há muito tempo e de quem gosto bastante, ambiente cheio de flores. Quem não aprecia um casamento?

          Tudo corria muito bem, até que na cerimônia religiosa, o pastor diz que, a partir daquele momento, a noiva devia obediência ao futuro marido. Quase caí da cadeira. Como que alguém, em pleno século XXI, diz que uma mulher deve obediência a um homem. Olhei em volta e, para meu espanto ainda maior, ninguém estranhou a tal fala. Ninguém ficou indignado como eu. Parecia que aquilo era absolutamente normal.

         Cresci com um pai maravilhoso por um lado, mas completamente machista por outro. Dizia e repetia que ele era o chefe da família, o que significava que mulher e filhos deviam obedecê-lo. Certa vez, eu era adolescente e fui convidada para fazer parte de um grupo profissional de teatro. Poucas vezes quis tanto uma coisa. Quando cheguei em casa e contei toda feliz sobre o convite, ele simplesmente disse que não deixava. Como?

        Sempre que eu lhe pedia para fazer algo e ele negava, se eu insistisse, dizia que se no futuro meu marido deixasse, então eu poderia fazer. Foi assim com o teatro também. A ideia, não só do meu pai, mas da maioria da sociedade daquela época, é que nós, mulheres, passaríamos das mãos do pai para as mãos do marido, nossos chefes. Entretanto, meu pai era um homem que nasceu no início do século XX, até consigo entender, mas como que hoje em dia, uma religião ainda prega tal coisa?

       É essa ideia completamente estapafúrdia que dá origem aos feminicídios. O homem cresce achando que realmente ele vale mais do que uma mulher, que a mulher deve obedecê-lo e quando isso não acontece, ele simplesmente não aceita porque fere a sua frágil masculinidade. Se ele pretensamente é o chefe, sua mulher é sua empregada. Diante de qualquer recusa da empregada, resolve demiti-la da vida.

          Não adianta só fazermos leis mais duras para punir os agressores de mulheres, temos de alterar uma cultura. É preciso que as religiões, que têm tanto poder sobre seus fiéis, abracem a ideia da igualdade entre os gêneros e repitam constantemente que ninguém é chefe de ninguém. Qualquer religioso que pregue ao contrário deveria ser preso por incitação ao crime.

        Nós mulheres somos a maioria da população brasileira, somos a maioria nas universidades e temos de ter representatividade nos três poderes que governam o país. Mas só isso não basta. Temos de criar nossos filhos com completa igualdade, a começar pelos serviços domésticos que devem ser divididos igualmente e por não aceitar qualquer atitude machista de um menino em relação a uma menina.                E aí, quem sabe, um dia, teremos uma sociedade melhor, em que mulheres não morram nas mãos de homens fracos de caráter, inseguros e com complexo de inferioridade.

SP 07/04/2026

         

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