
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
CRÔNICA DA SEMANA
É PAU, É PEDRA

Sei que é lugar-comum, mas, para mim, o ano só começa mesmo depois do carnaval. Quer dizer, continuo trabalhando, mas não começo nada novo. Fico lenta, em compasso de espera. Só vendo o sol do verão arder.
Talvez, até inconscientemente, vou empurrando as coisas novas para se iniciarem após a grande festa popular. Não gosto de interrupções. Uso janeiro e fevereiro como uma grande preparação. Atualizo a agenda e os aniversários. Estipulo metas, possíveis e impossíveis. Organizo o escritório. Jogo fora papeis do ano passado. Penso e repenso.
Até minhas leituras ininterruptas ficam devagar quase parando. Há dias de ler uma única página e abandonar o livro para olhar para o céu, ver as nuvens formando o que a minha imaginação permitir, e sonhar acordada.
Entra março, o clima fica mais ameno. Muda o cheiro. O calor insuportável vai embora, chegam as chuvas e com elas uma vontade grande de pôr a mão na massa.
No primeiro dia do mês das águas, ataquei o teclado. É pau. É pedra. Até arrisquei versos, sabendo o quanto sou medíocre no gênero de Drummond.
Gosto de trabalhar e a modorra das meias férias já estava um pouco longa demais. Até o não fazer tem limites.
Ao final do primeiro dia útil de março, fechei o computador com a sensação boa de dever cumprido. Em um único dia, avancei mais do que nos últimos dois meses. Parece loucura. Acho que “é a promessa de vida no teu coração.”
Entretanto, talvez seja apenas uma repetição de padrões que enfiaram na nossa cabeça desde sempre. Mas nem quero pensar sobre isso. O carnaval não vai acabar, graças a Deus. E uma diminuição no ritmo vai ser sempre muito bem-vinda, mesmo que eu não saia por aí fantasiada.
Muitas vezes, temos de parar de nos cobrar e aceitar desacelerar, mesmo que não estejamos propriamente de férias. Só se aprecia realmente a paisagem quando o carro anda devagar, dando tempo para os detalhes.
Bem-vindo 2026! Agora pra valer.
SP 03/03/2026