
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
CRÔNICA DA SEMANA
O GALO

Nunca morei em fazenda. Só conheci um galo em visitas esporádicas e de livros infantis. Na minha memória, galos cantavam ao amanhecer para acordar a bicharada toda. Certo? Erradíssimo!!
Poderia morrer com essa informação equivocada se não fosse por um vizinho que resolveu que o meio de São Paulo era um bom lugar para se criar um galo.
Na primeira vez que estava no jardim e ouvi o galo cantar, achei que era uma gravação. Algum tipo de música experimental ou coisa que o valha. Os dias que se seguiram me mostraram que não, que não havia música nenhuma, só um galo paulistano. Ter um galo como vizinho é algo tão inusitado que ocupa boa parte dos meus pensamentos.
Além disso, ele já me acordou inúmeras vezes. Mas também, ao contrário do que eu sempre imaginei, “meu” galo não me acorda cantando sempre na mesma hora. Cada dia ele experimenta um horário diferente. Das cinco da manhã às oito, qualquer hora é hora para o nobre cantor. Talvez ele tenha um daqueles relógios internos que desregulam com facilidade.
Outra coisa que também me surpreendeu é que o galo não canta só ao amanhecer, como eu sempre acreditei. Meu vizinho galináceo também canta na hora do almoço e ao entardecer. Quando então, claro, não quer acordar ninguém, mas apenas praticar suas potentes cordas vocais.
Pesquisei e descobri que um galo pode cantar a qualquer hora por causa dos mais variados estímulos, seja por medo, seja para responder a um barulho desconhecido ou para demarcar território. Também descobri que um galo pode ser capaz de demonstrar empatia, como um animal de estimação. Aposto que você também não sabia.
Não sei onde o galo mora. Não fomos apresentados. Não o conheço, e só o imagino bem grande com sua crista vermelha. O som vem dos fundos, da rua de trás. Porém, não importa. Minha casa sempre recebe visitantes estranhos como urubu, mico e saruê e não vai ser um galo cantando ao longe que vai me tirar o humor.
O que me deixa admirada é que se não fosse por um vizinho bem fora da caixinha, eu teria morrido com uma informação completamente errada sobre meus amigos galináceos. O que me leva a pensar: o que mais acho que sei, mas, de verdade, não sei?
SP 21/04/2026