
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
CRÔNICA DA SEMANA
O GOLPE

Há semanas que o pessoal do telemarketing e dos golpes realmente me escolhem. São telefonemas e mais telefonemas.
A maioria das pessoas que eu conheço não atende ligação de número desconhecido, mas eu sou curiosa e sempre penso que pode ser alguém me trazendo uma surpresa boa, completamente inesperada. Sim. Pode falar. Eu aceito. Sou uma otimista um pouco ingênua!
Enfim, devia ser o vigésimo oitavo telefonema daquela semana (claro que eu não contei!! É só para lhe dar um número) quando eu atendo e a voz masculina do outro lado diz que se chama Marco e é da segurança do meu banco. Normalmente, eu desligaria na hora e talvez até xingasse um pouco, já que os bancos já explicaram um milhão de vezes que nunca ligam para os seus correntistas. Entretanto, eu estava de bom humor e achei que valia a pena me fazer de sonsa e me divertir com aquele safado.
Deixei que ele me contasse uma enorme história de como a minha conta bancária estava em perigo e de como era preciso uma série de procedimentos para evitar que eu fosse roubada. Fiz um monte de “uis” e “óhs” para entrar na história. E quando ele acreditou que eu estava completamente convencida, começou a me pedir meus dados. Hesitei um pouco para me fazer de desconfiada, mas acabei cedendo e assim lhe dei um número de CPF, de conta bancária e de senha que jamais existiram.
Ele pediu que eu esperasse um pouco, momento que eu imagino que ele estava tentando entrar na minha conta. Voltou ao telefone e me disse que havia alguma coisa errada, pois os números não batiam. Pedi desculpas, afinal eu era uma idosa e não tinha mais boa memória, mas que eu ia consultar meu caderninho, e pedi que ele aguardasse.
Eu o deixei esperando cerca de dez minutos e quando voltei, achando que ele já havia desligado, qual não foi minha surpresa em perceber que ele ainda estava firme no papel. Já sabia o que fazer. Perguntei se ele era o Marco Cunha, filho da minha vizinha Maria Lucia que também trabalhava no banco. Educadamente, ele me respondeu que não era ele. Comecei então a lhe fazer inúmeras perguntas, sem permitir que ele me interrompesse. Perguntei se era casado, se tinha filhos e por fim, quantos anos ele tinha.
Com a maior paciência respondeu a todas as minhas perguntas, e imagino que nenhuma resposta foi verdadeira. Mas aproveitei sua idade fictícia, que ele declarou ser 38 anos, para lhe perguntar por que alguém com 38 anos achou que podia passar o golpe em alguém muito mais velha do que ele e que nunca roubou nem um clipe. Um silêncio do outro lado. Achei que ele fosse desligar, mas para minha surpresa, começou a rir e disse tinha gostado muito de mim. E que eu continuasse assim, bem esperta para não cair em golpe nenhum. E ainda completou: "há muita gente malandra por aí."
Desligou o telefone e eu fiquei rindo sozinha. Valeu cada segundo.
SP 03/11/2026