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A PEÇA

          Quem escreve muito e há muito tempo como eu, tem textos de que nem se lembra mais e outros que, se não fosse a sua letra ou a sua assinatura, ou se ainda não estivessem nos arquivos de seu computador, você não diria que eram seus.

          Apareceram em um lampejo e desapareceram da memória talvez no mesmo lampejo. A grande maioria é de textos incompletos, mas há muitos completos e esquecidos. Foi assim que eu descobri, outro dia, organizando minha produção, um texto de teatro meu, inédito. Para ser bem sincera, inédito até para mim. Não tenho a menor lembrança de tê-lo escrito.

          Ainda bem que sempre dato meus textos e a data corresponde a uma época da minha vida que escrever para teatro era quase que diariamente. Nem bem uma peça estreava e eu já tinha outras no forno.

        Foi escrito em papel, em uma velha IBM elétrica que comprei quando ganhei meu primeiro direito autoral. Era o que havia de mais moderno para época. Hoje é um trambolho que ocupa um espaço enorme, não uso nunca, mas que me recuso a jogar fora por ter valor sentimental.

       Li o texto interessada. Era surpreendentemente bom. Não era nenhum Hamlet, mas não era de jogar fora. Menos mau, pensei. Já rasguei muito papel e deletei sem dó muito arquivo nessa vida. Drummond dizia que nada como deixar um texto descansar na gaveta por um bom tempo para poder avaliá-lo imparcialmente, sem emoção. Era o caso. A tal peça já tinha descansado por mais de trinta anos, sem sequer sonhar com as luzes da ribalta. Li como se fosse o texto de um estranho.

        Passei para o computador revisando a língua-mãe, atualizando referências completamente em desuso, censurando falas que até podiam ser engraçadas no século passado, entretanto, politicamente incorretas para o nosso século XXI. Gosto de reescrever. É como se eu tivesse uma segunda chance de fazer melhor. Tenho textos reescritos mais de 5 ou 6 vezes. Mas é também Drummond que ensina que, em algum momento, é preciso por o ponto final.

          Romances, contos, peças, crônicas são todos filhos de uma mesma mãe, mas não poderiam ser mais diferentes. De idades diferentes, de alturas diferentes, de almas diferentes. Entretanto, buscam todos por um lugar ao sol para que sejam vistos e admirados. São como crianças carentes esperando um aplauso, um parabéns, mas que se contentam felizes ao ver uma lágrima rolar ou ouvir uma gargalhada estridente. Foi o que aconteceu. Chorei ao reler.

          Como autora, sei que a emoção que sai do papel é o que determina o alcance de um texto e, como mãe, sei que essa é a melhor sensação que um filho pode me dar. Senti culpa. Que mãe é essa que abandona um filho bom por tanto tempo?

SP 25/02/2025

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