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OS VIZINHOS

          Leila sonhava em se mudar para uma casa há muito tempo. Não suportava mais todos os dias de manhã, atrasada para o trabalho, ficar esperando elevador, enquanto um vizinho sem noção de civilidade segurava a porta em seu andar.

        Não aguentava mais as longas reuniões de condomínio. Aquela disputa ridícula pelo pequeno poder. Pessoas completamente sem bom-senso propondo coisas desnecessárias para o condomínio. Também não queria mais reclamar com o síndico ou o porteiro por causa do barulho dos adolescentes do andar de cima. Afinal, eram adolescentes e adolescentes adolesciam assim.

           Por isso que quando viu a placa de vende-se na casa que sempre lhe chamara a atenção, um sobrado encantador dos anos 60, e na rua mais arborizada e acolhedora do bairro, sabia que compraria aquela casa. Era o seu sonho de consumo. Era pra isso que trabalhou tanto a vida inteira e engoliu mais sapos do que uma cobra faminta.

         Gastou todas as suas economias, se endividou um pouco, mas lá estava ela, naquele seu primeiro domingo de sol, plantando suas próprias plantas em seu próprio jardim, sem ter de pedir permissão para ninguém. Ainda podia ouvir uma Bethania com a certeza de que não estava incomodando. Sorriu, feliz! Realmente tinha valido cada tostão.

          Quando o som ensurdecedor rompeu o ar e lhe penetrou no coração, ela demorou para identificar que era uma música que vinha do vizinho. Não era possível. Será que seus vizinhos também tinham adolescentes ruidosos? Era talvez o som mais alto que ela já tinha ouvido na vida. Cadê o síndico? Cadê o porteiro? Reclamar pra quem?

         Depois de quinze minutos que pareceram uma eternidade, ela resolveu tocar a campainha da casa ao lado. Demorou mais uma eternidade para um homem de calção aparecer na porta. Ela tentava gritar mais alto do que a música, mas era um esforço em vão. Quando ele começou a fazer gestos com a mão, Leila compreendeu que ele era surdo e ele compreendeu que ela era completamente ignorante em Libras.

          Foi buscar um caderno e um papel para que ela escrevesse o que queria, o que Leila fez prontamente. Ele fez sinal para que Leila entrasse em sua casa, correu e abaixou o som. Ela sorriu agradecendo e ele pediu desculpas. Escreveu que a empregada devia ter mexido no volume do som e ele não havia percebido. Gostava de ouvir a vibração da música. Leila sorriu de novo. Ela escreveu que era sua nova vizinha e de papel e caneta em mãos, começaram a conversar.

        Já faz 10 anos. Leila aprendeu Libras e aprendeu a falar mais devagar para que ele possa ler seus lábios. São mais do que vizinhos, são amigos. Leila sempre pensa que talvez o que atrapalhe em um edifício são os intermediários como síndico e porteiro. Talvez tivesse feito muito mais amizades nos muitos anos em que morou no apartamento se tivesse simplesmente tocado a campainha para conversar.

SP 18/02/2025

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