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SALA DE ESPERA

         Se existe um lugar em que a gente se sente, no mínimo, esquisito, é sala de espera de médico, principalmente, se estiver lotada.

        Depois da pandemia, quando aprendemos um bocado sobre vírus e transmissão, nós passamos a olhar com outros olhos o que até então não chamava nossa atenção. A primeira coisa bem estranha é aquele monte de cadeira, uma grudada na outra. Eu sempre tento manter pelo menos uma cadeira de distância de outra pessoa, mas nem sempre isso é possível. Principalmente, quando tem muita gente, ou meu vizinho de cadeira chegou depois e se sentou bem ao meu lado, quase roçando seu cotovelo no meu que eu recolho imediatamente.

        A coisa se complica ainda mais, se alguém começa a tossir ou não larga o lenço do nariz. Se a especialidade médica for ortopedia, ainda vai, mas pneumologia, por exemplo, dá vontade de sair correndo. As pessoas olham de canto de olho para o enfermo e tentam virar o rosto sem chamar atenção, mas é praticamente impossível.

         Para agravar o quadro, ainda é verão, um dos mais quentes de todos os tempos e a pequena janela não dá conta de tanta gente. O ar começa a ficar viciado, cheira a remédio e eu fico imaginando, além do enfermo óbvio, quem mais ali deveria estar em casa ou usando máscara. Por que abandonamos a máscara? Eu me pergunto, já arrependida de não ter vindo com a minha.

        O tempo passa lentamente. A cada vez que a porta do consultório se abre e um paciente sai, eu fico aguardando ansiosamente que a recepcionista diga meu nome, mas nada. É daquele tipo de médico que marca consulta de quinze em quinze minutos, mas pelo jeito, demora meia-hora com cada paciente, atrasando horas. Se médico fosse empregado de empresa, já teria sido demitido há muito tempo. Entretanto, a sociedade é benevolente com os atrasos dos médicos e eles abusam dessa benevolência.

         Vou lembrando a ordem de chegada das pessoas, e imagino que devo ser a próxima a ser atendida. Cheguei pontualmente para o horário da minha consulta, mas já estou ali há quase duas horas e fico pensando se quando entrar no consultório devo reclamar com o médico ou se ele pode não gostar e me atender mal. Enquanto divago, chega uma senhora que claramente tem mais de oitenta anos.

          Quando finalmente a porta se abre e a recepcionista vem chamar o próximo paciente, ela vê a senhora, volta para o consultório para confabular com o médico e sai novamente chamando a idosa. Obviamente ela passou na minha frente. Também sou idosa quero gritar, mas me contenho, pois há idosos mais idosos do que eu.

       Respiro fundo e viro a página do livro para ler mais um pouco. Submissa, engulo a raiva, finjo ser Pollyana e penso que pelo menos valeu uma crônica.

SP 18/03/25

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