
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
SAUDADE MANSA

Há vários tipos de saudade.
Há a saudade doída em que a ausência de alguém ou de algo é tão forte que a gente imagina até que se possa morrer de saudade. Ninguém esperava ou não acreditava que a separação poderia acontecer tão abruptamente. O peito se aperta, falta um pouco de ar e o mundo torna-se tão escuro que nossos olhos não enxergam saída.
Há a saudade escolhida, aquela que foi criada ou aceita por nós, porque se afastar era a melhor solução. A gente consegue ver ou imaginar a luz fraca na saída da caverna e, por mais que o mundo ainda seja baço, sabemos que basta caminhar, caminhar, caminhar que, a qualquer hora, ele vai se colorir novamente. Dói um pouco? Claro que dói, mas é quase como trocar uma dor por outra, inevitável.
Mas há também a saudade mansa. Aquela que redescobre o álbum de fotografias, que nos mete no fogão tentando reproduzir o prato do afeto, que nos agasalha com roupas que ainda têm seu cheiro. Gosto da saudade mansa. E por mais que ela me entristeça um pouco, ela também me acaricia, o relógio para, e eu quase chego a acreditar que você está por perto.
Como sempre, lhe escrevo. Conto coisas sobre a família, sobre os amigos, sobre o futebol que você tanto gostava, sobre o país, sobre tudo que aconteceu depois que você se foi. Nove anos é muito tempo e tenho medo de me esquecer de algo. Coisas se quebraram, outras foram inventadas, pessoas foram embora, mas também novas pessoas vieram e você iria adorar conhecê-las. Falo de você para elas, tento descrevê-la, mas sempre acho que o retrato não ficou tão bom quanto você mereceria.
Como descrever sua risada, seu bom-humor, suas conclusões malucas?
Olho sua foto com a coroa de papelão na cabeça e tento relembrar a brincadeira daquele dia. Você sempre quis ser rainha, sem saber que já o era há muito tempo. Sem você, o trono ficou vazio, a monarquia acabou e a gente fica tentando encontrar um novo ponto de convergência.
O relógio volta a andar. Ouço as badaladas me chamando de volta. Guardo a saudade mansa dentro da caixa vermelha e acomodo a chave com carinho no sentimento do lado. Foi muito bom lembrar!
SP 04/02/2025