
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
UMA MANHÃ

Acorda sonolento.
Olha o relógio no celular e se assusta com o adiantado da hora. Pula da cama e começa a rotina diária em ritmo acelerado. Não entende como o despertador não tocou. Como pode perder a hora assim.
Procura um terno no armário, uma gravata que combine e busca as meias. Olha duas vezes para ter certeza que são mesmo de um único par. Ainda se lembra quando foi trabalhar com uma meia azul e outra preta e foi objeto de chacota o dia todo. Não é só na escola que tem bulling.
Chega na cozinha para preparar o café e quase tem um infarto quando não vê a filha. Ela também perdeu a hora e os dois vão se atrasar. Sobe as escadas correndo e bate na porta do quarto dela, avisando que ela precisa voar porque estão atrasados.
Pensa em acordar a esposa. Pedir ajuda com a filha adolescente ou com o café, mas se lembra que ela anda estressada com o emprego no hospital. Ainda por cima, tinha pego o turno da noite e só deve ter dormido de manhã. Nem pensar em acordá-la.
Põe duas fatias de pão de forma na torradeira, pega tudo o que vê na geladeira para passar no pão e deixa de qualquer maneira em cima da mesa. Coloca a água do café para ferver e esquenta o leite da filha.
Olha o relógio novamente e se desespera. O que vai dizer no trabalho? Que perdeu a hora? Ora!! Parece algo tão amador e ele gosta de pensar que é um ótimo profissional. Precisa de uma desculpa, de uma boa desculpa e não o óbvio como um pneu furou ou o carro quebrou. Todo mundo usa a mesma desculpa.
Um segundo de descuido e o leite ferve e derrama tudo no fogão. Quer jogar a panela na janela, mas se controla e torna a enchê-la de leite. Só muda de boca de fogão. Não há tempo para limpar nada e, com certeza , a esposa vai matá-lo quando chegar em casa. E essa menina que não desce pra tomar café!
As torradas pulam e ele acha que o pão cheira um pouco a azedo, mas não é hora de pensar nisso. Passa a manteiga e engole tudo em duas mordidas. O leite esquenta e ele sobe para dizer à filha que ela que pegue um carro de aplicativo para ir à escola. O tempo acabou. Não pode se atrasar mais.
Abre a porta do quarto dela como um furacão e quase tem vontade de sacudi-la quando vê que ela nem levantou da cama. Começa a gritar feito um louco um monte de coisas sem sentido. Ela finalmente abre os olhos e o olha assustada. Só consegue dizer em um sussurro ao meio aos berros:
- Pai, hoje é sábado.
SP 11/06/2024